"A paixão de Celso por bois indianos não parava de aumentar, ao mesmo tempo em que cresciam suas decepções com os animais comprados. Ildefonso testemunhava essas decepções…
- Era a frustração dele naqueles anos, um homem rico, respeitado, ainda na casa dos cinqüenta anos, e com aquela amargura, que ele disfarçava, mas para mim contava: "Um dia nós ainda vamos criar zebu do melhor e vender pra criadores do Brasil inteiro!" Então um dia eu falei: só se a gente for buscar zebu na Índia! Ele ficou balançando a cabeça e pensando."
Em 1957 enviou ao Ministério da Agricultura os primeiros pedidos de autorização para importação. As respostas negativas eram automáticas. O espanhol teimoso pareceu se acalmar por uns tempos; foi quando se desiludiu com as últimas três vacas adquiridas. O tempo mostrou que eram, todas as três, vacas inférteis. Incidente tão prosaico motivou a maior decisão da vida de Celso. Ildefonso não se esquece que estava pescando na fazenda, com Celso ao lado, pensando e olhando a água, as três vacas na cabeça.
- Esquece isso seo Celso. Fora de Minas, zebu só mesmo buscando na Índia, já falei!
- E você tem coragem de ir, Ildefonso?
- Se o Sr. comprar, eu trago.
- Mas é proibido, Ildefonso.
- Mas é só lá que a gente vai conseguir.
Celso não falou mais nada. Dormiu na fazenda. No dia seguinte, cedinho, foi procurar Ildefonso.
- Como é? Ta mesmo decidido?
- Resolvido a que, seo Celso?
- Buscar gado na Índia, nós não vamos buscar gado na Índia?!
E a Fazenda Cachoeira, como ele a batizou, por causa da queda d'água que então havia no Rio Tibagi, que serpenteava entre as terras férteis, foi portanto, o lugar preparado para futuramente receber os tão sonhados reprodutores e matrizes zebuínos de seu país de origem.
No início ele ia lá nos finais de semana, não para descansar do trabalho diário, mas para trabalhar ainda mais, lado a lado com o peão, o tratorista, o carpinteiro, o pedreiro. Construiu sede, colônia, represa, curral, sempre supervisionando tudo, cuidando de todos os detalhes.

A entrada da fazenda ele escolheu com o coração.
Abrindo uma estrada no meio da mata virgem, deparou-se com uma enorme peroba bem no meio do caminho traçado por ele. Não teve dúvidas: fez uma pequena curva, abrindo em duas a estrada, para mais adiante voltar a ser uma só, até a porteira.
A peroba está lá até hoje e a mata virgem guarda o mesmo colorido verde forte e o mesmo cheiro de pau d'alho.
Foi determinado por ele que se preservasse a mata, isso nos anos 50, quando a palavra ecologia ainda não estava nem na moda.
Com certeza, além da preservação, cada vez que passava por lá, ele gostava mesmo era de recordar dos tempos idos (1930), em que cortava a mata virgem, solitário em seu caminhãozinho Ford 1929, carregando telhas e tijolos, desde Jataizinho até a nascente Londrina e depois com seus passageiros na jardineira da empresa em que, no início, era patrão, motorista e mecânico.
Era tudo.

Quando por volta de 1957, ele começou a falar em nossa casa que queria ir à Índia, berço das raças zebuínas, buscar gado puro de origem para melhorar a genética do gado nacional, nós tínhamos certeza de que ele o faria, mas não imaginávamos que aquele sonho se transformaria numa verdadeira epopéia: a epopéia do zebu.
A história já é bem conhecida de todos, mas queremos citar alguns trechos do livro já mencionado:
"Uma revolução genética, nada menos, era o que Celso via naqueles anos finais da década de 50, quando seu interesse pelo zebu aumentou a ponto de estudar, também, a Índia. Passou a visitar técnicos do Ministério da Agricultura, veterinários e zootecnistas, colhendo a convicção de que haveria, sim, ainda na Índia, verdadeiras "jóias raciais", animais puros que poderiam "refrescar o sangue e aumentar a produtividade dos rebanhos não só no Brasil como de toda a América Tropical."
"Consta que nunca brasileiro algum andou nesta região da Índia. Aqui nos chamam a atenção os bois carreiros. São muito grandes as plantações de arroz e cana, e usam os bois como meio de transporte. Vimos bois de carro que são verdadeiras jóias Nelore." (Benzwada - Vijayawada, Estado de Andras, Índia, 19 de janeiro de 1959).
"Do lote de 112 animais importados, cederá 60 para criadores entendendo-se que "ceder", entre pecuaristas, não significa apenas vender, mas fazer negócios propícios à continuação das linhagens, amarrando laços de amizade entre criadores para futuras cruzas e trocas. A partilha de Celso será a maior já feita de uma importação de gado indiano."
"Na exposição de Londrina, em abril de 1961, continuará a fazer, de terno e gravata, o que raros criadores fazem: desfilar, com os animais pela pista, a varinha de peroba numa mão, na outra a corda do cabresto, sorriso de paz com o mundo."

A grande amizade entre o Maharaja of Bhavnagar iniciou-se através de uma visita, que Ildefonso fez logo após ter chegado à cidade de Bhavnagar, quando telefonou ao palácio a fim de marcar uma hora para ver o plantel, pois já havia comprado quatro novilhas nas redondezas, sem saber que eram filhas de Krishna. Atendeu o secretário, que por sorte falava um pouco de português, e disse que o marajá não tinha interesse em vender gado e que não ia recebê-lo, mas o marajá estava perto do telefone e perguntou quem era.
Ao saber que era um brasileiro interessado em comprar gado gir, ficou curioso e mandou que estivesse no palácio em meia hora. Ildefonso foi a pé, chegou empoeirado e suado, de sapatão e chapéu e mangas de camisa, mas chegou na hora exata, 17h30. Pediu desculpas pela roupa, mas o marajá o recebeu cordialmente, dizendo que esperava que um criador de gado estivesse vestido como tal.
Tomaram chá com bolachas e Ildefonso soube pelo secretário que era o primeiro brasileiro a entrar no palácio. Conversaram longamente sobre a intenção de Celso: levar gado indiano para o Brasil. A conversa foi até depois de meia-noite, ficando assim estabelecida a amizade verdadeira e duradoura, que até hoje existe.
No dia seguinte, Ildefonso perguntou sobre o touro Krishna, que estava num retiro, já vendido a uma sociedade leiteira, mas contou que enviara fotos a Celso e recebera telegrama taxativo: "compre urgente esse touro!"
O marajá sorria e autorizava: muito bem, vendessem o touro aos brasileiros. Numa página de seu diário de viagem está anotado: "À noitinha vamos visitar o marajá, o qual nos recebe com fidalguia (…) e nos convida para uma caçada no dia seguinte".
Mas o que na realidade o marajá percebe naqueles dois brasileiros destemidos é que encontrou alguém digno de receber de herança a linhagem gir, desenvolvida pela sua família durante 2000 anos, com três séculos de cruzamentos registrados em caprichosos livros de anotações. Apaixonado por genética e também encarando como missão pessoal a salvação de uma raça tão dócil e resistente, o marajá procurava há algum tempo um guardião para seu tesouro. E de fato, alguns anos mais tarde, em 1965, após a sua morte, seu herdeiro e novo Maharaja of Bhavnagar, Virbhadra Singh, envia uma carta, na qual expressa a última vontade de seu pai: doar o seu rebanho à família Garcia Cid.
|